2 de dez de 2009

O menino do Comboio


 

O comboio corria veloz em passo ritmado, rumo ao Norte
Aqueles que dentro estavam se consideravam com sorte
É que lá fora o vento uivava feroz e cortava a respiração
Já dentro, o clima era gostoso devido à calefação

Uma mãe viajava com seus dois filhos no vagão principal
Formavam uma cena bonita, tocante, quase angelical
As crianças ouviam-na contar histórias com atenção dedicada
E a mãe se esforçava para manter a prole concentrada

A história em pauta era a do natal que se aproximava
As crianças sorviam as palavras com o cuidado que a mãe desejava
Nada perdiam de todos os pormenores da narração deliciosa
E a contadora se esmerava nos detalhes, era mesmo caprichosa

Tão concentrados estavam, que nem chegaram a reparar
Num novo passageiro que lentamente se viera a aproximar
Era um menino de pele morena, olhos escuros, ar assustado
Mas que se achegava devagarzinho, claramente interessado

Então, num susto meio alarmante a filha mais nova o notou
Chegou-se à mãe um tanto apavorada e nela se aconchegou
O menino moreno esbugalhou os olhos e abaixou o rosto
Estava acostumado à rejeição, e a olhares de contragosto

Em sua face curtida do sol, do frio e do vento invernal
Apagou-se a luzinha que brilhara de modo pouco habitual
É que a cena daquela família à sua frente reunida
Parecia a resposta de uma prece tantas vezes oferecida

Mas o olhar assustado, a testa enrugada em desaprovação
Recordara o garoto de sua triste, amarga e injusta posição
Não deveria ter saído da terceira classe onde se escondera
Ele e o pai,que já dormia, vitima de mais uma bebedeira

Antes porém que o menino pudesse se afastar tristonho
A mãe recuperou o ânimo e o chamou com ar risonho
Não gostaria ele de se juntar ao grupo para ouvir continuar
A linda história que a pouco se estivera a contar?

E o menino acanhado, mas com novo alento se aproximou
Timidamente se foi sentando e logo com um sorriso se acomodou
A mãe mantinha a filha no colo e o filho à sua frente
Respirou fundo e voltou à história que não saíra da mente

A mulher então contou de uma noite bela há muito tempo atrás
Quando nasceu um neném que era príncipe de Deus e traria a paz
Falou de anjos, falou de estrelas, falou até de uma manjedoura
Onde o menino foi colocado e adorado numa devoção imorredoura

Naquele dia nascera em forma de gente o mais precioso amor
Que mais tarde venceria todo o mal, sofreria toda a dor
E messe ponto da história o menino fez ar de desentendido
Começou a cogitar no que ouvia e que não fazia sentido

Olhou a senhora com o ar mais honesto e puro que era possível
E sem medo de errar ou de fazer algo que fosse horrível
Perguntou sem pejo, sem malicia mas com autêntico fervor
Diga-me senhora, por gentileza, o que vem a ser isso de amor?

A mulher constrangida ficou quase sem acreditar
Que uma criança pudesse sobre algo tão sublime indagar
Não conhecera ele o inefável e doce do materno carinho?
Não tenho mãe, respondeu o garoto, suspirando baixinho

Confusa ficou a contadora de histórias e sem solução
Como explicar aquilo que só é possível sentir com o coração?
Então tocada no intimo pelos olhares indagadores da criança
Tomou-o nos braços e o beijou com ternura, o beijo da esperança

O menino tímido se encolheu ao sentir no rosto aquele calor
Fechou os olhos e sorriu como que para prolongar o torpor
Olhou a senhora sem conseguir falar, sem conseguir exprimir
Aquilo era algo bom demais para descrever, só dava mesmo para sentir

Rompeu o ar então uma blasfêmia maldosa, um grito iracundo
E todos no vagão tremeram pois o ronco era maligno, profundo
Entrou no compartimento um homem maltrapilho, bêbado, feroz
Logo atrás o cobrador do comboio que o encontrara, seu algoz

Aquele fedelho é meu, gritou o malvado apontando o rapaz
O garoto instintivamente tentou fugir e foi agarrado por trás
Reunido ao progenitor desbocado logo levou uma bofetada
E nova enxurrada de palavrões brotou da boca suja e malcriada

A mãe desesperada abraçava os filhos, como que para os proteger
Sofria pelo menino e já chorava de angustia sem saber o que fazer
Os dois clandestinos foram arrastados para fora do vagão
Seriam expulsos do comboio assim que chegassem à próxima estação

Pela janela húmida sentados confortavelmente em seus lugares
A pequena família assistiu a tudo trocando tristes olhares
E foi desse lugar tranquilo e mesmo privilegiado
Que vira o menino os observar com ar desamparado

Então, num ato de coragem, bravura e extrema valentia
O garoto soltou-se do algoz, que na verdade não tinha nenhuma serventia
Contornou o cobrador do comboio que tapava a entrada
E disparou pelo vagão em verdadeira cavalgada

Em instantes estava junto à família que o abrigara
Ajoelhou-se aos pés da mulher que a historia lhe contara
Com olhar humilde e cheio de esperança soltou seu clamor
A Senhora pode me dar mais um pouco de amor?

A mulher chorando angustiada, no seio o apertou
Seu rosto sujo e triste com suas lágrimas molhou
Encheu sua face infantil de beijos doces, cheios de ternura
A cada novo beijo curando um pouco mais da amargura

Quando o cobrador veio o menino de seu esconderijo retirar
Já no seu rosto se podia perceber um novo brilhar
Aquele pequeno momento fora o suficiente para nele acender
A chama da esperança, uma expectativa especial e difícil de se perder

Enquanto o comboio se afastava lentamente da estação enregelada
A mãe pode ver o sorriso do garoto e sua mão levantada
Ele acenou uma despedida tímida mas calorosa
Deixando no coração dela uma lembrança forte, dolorosa.

Neste mundo difícil em que vivemos você e eu
Temos visto o estrago causado pelo pecado que prevaleceu
Sabemos de gente triste, desesperada, sem ânimo na vida
Que já perdeu a expectativa de recompensa da sua lida

Vemos rostos como daquele menino naquele trem
E muitas vezes evitamos olhar para estes que se aproximando vem
A dor é tamanha neste planeta que chamamos terra
Afinal são as marcas da pobreza, da corrupção, da guerra

Mas com esta história daquela véspera de natal
Descobrimos que há algo que se pode fazer afinal
Somos de Deus criaturas, criados à sua imagem em perfeição
Exatamente para refletir sua glória, carregar sua virtude no coração

E em momento nenhum chegaremos mais perto de perceber
A vida que Deus nos criou para usufruir e viver
Do que quando refletimos do Senhor o maior valor
Mostramos em gesto, palavra, ação, o seu amor

Então vivamos irmão, vivamos, mas em plenitude
Entendendo que viver requer de nós escolhas, atitude
Deixando um pouco de olhar apenas para nós mesmos e sem temor
Amar a vida, amar o próximo, ser confundidos com o Senhor!

Joed Venturini
Lisboa,  dezembro de 2009

4 comentários:

Luiz Carlos Coppolo disse...

Muito obrigado, Pr Joed, por se importar conosco...mesmo estando tão longe e ocupado.

Aninha Milho disse...

Pr. Joed Deus continue a te abençoar, inspirar e usar sua vida! Lindo texto! Verdadeiro! obrigada! Ana Claudia

Joed Venturini disse...

queridos irmãos, escrevi este conto de natal há muitos anos e o li no dia 24, num dos nossos natais na Guiné, em Bafatá. Lembro que estávamos à luz de velas...mas nos lembra que a melhor coisa que temos é o amor da família, e é também o que podemos oferecer aos outros. Agora em poema fica mais fácil transmitir a mensagem. Agradeço pelo apoio e orações.

Misia disse...

Joed, meu amigo e irmão - obrigada por mais este presente que nos chega da tua parte e da tua família maravilhosa. O texto é lindo, tem a tua marca - beleza e profundidade; como tem sido tudo o que Deus te inspira a escrever. Conte com as nossas orações pelo teu ministério e por teus amados, que também são nossos. Um Feliz Natal, repleto de todas as alegrias e venturas que vocês merecem. Com muito amor, Misia (tua irmã), Nelson (teu amigo filósofo), Sara e Caleb (nossa prole). (De Guiné-Bissau/África)