6 de nov de 2009

CONTO BÍBLICO


                                  
O PURO

Joed Venturini de Souza

Um homem de trajes finos e elegantes, testa alta e olhos vivos andava pela zona da doca apreciando a vastidão do Porto.  Cesaréia, construida por Herodes em honra de Augusto, tinha um porto tão vasto quanto o de Atenas e o observador conhecia-o bem . Pelos trajes aparentava ser gentio, provavelmente grego.   Pela análise de seus pertences se depreendia ser ele médico.


Examinou a formidável muralha de 66 metros de largura. A entrada do porto era magnifica. A cidade localizava-se na Palestina mas era culturalmente grega em sua concepção, com direito a teatro, anfiteatro e sistema de esgotos. O homem caminhou por ruas perpendiculares e entrando numa casa modesta foi recebido por um criado num aposento singelamente mobilhado.


Nada ali indicava que estivesse na casa daquele que fora um dia um dos homens mais ricos da Judéia. Havia dois divãs simples. Uma pequena mesa com algumas frutas num cestinho de palha e um tapete bastante gasto. Nas paredes pendiam lâmpadas de azeite usadas pelo povo em geral. Nenhum sinal de abastança ou luxo. O médico sentou-se de manso com seu olhar atento, buscando cada pormenor do local, como se isso o pudesse ajudar a caracterizar o dono da casa.


Logo entrou quem ele esperava. Era um homem deveras pequeno. Apenas um metro e meio, pois não chegava nem ao ombro do grego e este não era alto. O recém chegado fez uma vênia curta e com franco sorriso saudou o visitante:
_ A paz do Senhor esteja contigo, irmão Lucas!
_ E contigo ela permaneça, irmão Zaqueu!


Beijaram-se no rosto e estreitaram-se nos braços um do outro como velhos amigos apesar de ser a primeira vez que se viam. Zaqueu mostrou o divã convidando Lucas a sentar-se e foi se instalar no outro ali presente. Ambos se olhavam com um misto de curiosidade e satisfação.

_Que novas tendes do irmão Paulo? (quis saber Zaqueu)
_Oh , está bem (replicou Lucas sorrindo das lembranças). E muito atarefado como sempre. O zelo do Senhor o consome e vive intensamente os problemas de cada igreja qual pai que se apoquenta com o crescimento dos filhos.
_Ele é um vaso escolhido (concordou Zaqueu). Um vaso de honra para o Senhor.


O médico abanou a cabeça e por uns poucos instantes deixou se levar pelas inúmeras recordações incríveis que já colecionava do tempo passado ao lado do corajoso apóstolo. Depois, abrindo muito os olhos, pareceu querer retornar com vivacidade ao local e circunstâncias presentes.
_A que devo esta alegria de recebê-lo em minha casa?


_Bem (principiou Lucas), tenho tentado reunir o maior número possivel de relatos sobre nosso Senhor. É meu intuito produzir uma narração cuidadosa e acurada dos fatos para que fiquem guardados e sirvam de base para a fé daqueles que não puderam ser testemunhas da vida do Mestre. Para isso tenho conversado com vários irmãos que estiveram com Jesus. Assim, ouvi de Pedro a história do encontro do Senhor com o irmão e me despertou muito interesse. Gostaria pois de ouvir de primeira mão como se deu tal acontecimento.


O antigo publicano sorriu novamente, desta vez com nostalgia. Endireitou-se no seu divã, como que para melhor recordar e suspirou, envolvido pela memória de dias inesquecíveis que transformaram sua vida.


_Devo começar um pouco atrás (sugeriu então, perante o olhar atento de Lucas)... na verdade acho que começou quando eu ainda era garoto.
_Sabe, sempre fui de pequena estatura, e quando se é menino isso pode ser um grande embaraço. Raramente podia me envolver nos folguedos próprios dos da minha idade e as constantes provocações por causa de minha altura eram como que punhais que se cravavam em meu coração juvenil. Aos poucos, me tornei uma criança amarga e solitária.
O homem suspirou lentamente e continuou:


_Lá pelos meus 12 anos, conheci um escriba renegado que usava seus conhecimentos só para escrever, ler cartas e preparar recibos. Abandonara o trabalho de fazer cópia das escrituras porque a julgava tediosa e pouco lucrativa. Dele acabei aprendendo muita coisa. Era um homem rejeitado e meu coração se identificou com o dele. Cresci então perito em contas e manuscritos o que me foi muito útil mais tarde.


Para tristeza de meus pais me fiz cobrador de impostos. Meu domínio da matemática me permitiu acumular os lucros e logo estava bem de vida, muito além do que meus pobres pais poderiam ter imaginado. É claro que recebia o escárnio do povo que me considerava um traidor, mas não fui sempre um rejeitado? Antes um proscrito rico que um miserável! Era o que pensava.


Cresci em riqueza até que, por fim, fui até à cidade onde morava o romano que detinha o controle dos impostos sobre Jericó. Ofereci a ele lucros maiores do que os que obtinha e consegui assim a posição de chefe dos publicanos da cidade. Comprei uma grande casa, casei-me com uma mulher muito bela, vestia-me luxuosamente e possuía várias montarias de boa qualidade. Gostara de oferecer festas de gosto refinado.


É que Jericó, nessa altura, produzia grande quantidade de bálsamo que vendíamos a preço de ouro. Isso trazia à cidade muitos comerciantes e redobrado lucro. Era a situação ideal para um cobrador de impostos esperto e com poucos escrúpulos. Ah, é verdade que tinha então muitos "amigos", daqueles que costumam cercar os ricos em qualquer lugar do mundo. Amigos de verdade apenas um. Publicano também, que progrediu comigo e a quem considerava como meu braço direito.


Foi esse amigo que me surpreendeu um dia, me dizendo que ia deixar o serviço de cobrador de impostos. Fiquei intrigado... Propus-lhe novos lucros, melhor posição, mas recusou tudo! Não podendo dissuadi-lo, tentei obter dele a causa de tão abrupta mudança. E foi ele quem me falou de Jesus.


Ah , sim , é claro que já ouvira falar de Jesus. As estórias mais mirabolantes corriam a respeito dele. Curava cegos e paralíticos, purificava leprosos, expulsava demónios, multiplicava o pão. Ouvira já de tudo um pouco. Não me era indiferente, mas sabia o quanto o povo tem tendência para exagerar. Além do mais, Jesus era um rabi! um mestre! Eu bem sabia que os líderes religiosos nada queriam com os publicanos. E foi essa a novidade que meu amigo trouxe e que deveras me abalou.


Ele contou-me que o Mestre era amigo do povo. Sentava-se e comia com publicanos e pecadores, aceitava a aproximação de mulheres de vida duvidosa. Tinha inclusive um discípulo que fora publicano na Galiléia e que havia deixado tudo para o seguir. O ensino dele era diferente de tudo o que já ouvira. Não falava de lei como os sacerdotes e os fariseus. Não impunha ao povo um jugo maior do que podiam suportar. Falava de amor, de mudança de coração, de aproximação de Deus... e estas coisas, ditas por ele, não pareciam mensagens distantes, mas traziam uma autenticidade tão clara e distinta quanto a brisa fresca que vem do mar e desperta os sentidos.


Meu amigo deixou Jericó para ir atrás do Mestre e eu fiquei com o coração em agitação. Algo havia mudado em mim depois do seu testemunho. Já não me satisfazia com o acumular de riquezas. Tentei as coisas que habitualmente me traziam prazer... Dei festas, comprei novas roupas, troquei de cavalos, passei horas a fio contando meu dinheiro, mas nada. Havia um vazio crescente em meu ser que parecia estar prestes a me engolir.


Nunca antes tinha me apercebido o peso do significado do meu nome: Zaqueu, o puro. O simples mencionar de meu nome me irritava e deixava de mau humor. Parecia uma verdadeira sátira, um escárnio ainda maior. Sentia que só a religião poderia me ajudar. Então recorri aos sacerdotes. Muitos deles moravam em Jericó, aguardando sua vez de servir no templo. Porém, nenhum me recebeu. Davam as desculpas mais diversas, desde não poderem dispor de tempo até o se esconderem de mim. Parecia que eu era mais pernicioso que um leproso.


Foi o velho escriba, o que me servira de professor nos tempos de garoto, que me explicou tudo mais claramente. Eu era um desgraçado! Estava destinado ao inferno e não interessava o que fizesse. Os sacerdotes não podiam se aproximar de mim porque perderiam a pureza ritual e teriam que gastar tempo e dinheiro na purificação antes de poderem servir no templo novamente.


Naquele momento, senti o peso de minha condenação muito mais do que antes. Eu era uma espécie de praga contagiosa de quem os homens deviam fugir. O próprio Deus não tinha espaço para mim. Sentia o que Caim sentiu ao ser expulso da presença do Todo Poderoso. Apoderou-se de mim um desânimo tão completo que passei dias sem comer e caí numa prostração sem precedentes.


Então um dia ouvi... Jesus ia passar por Jericó! Se tivesse sido atingido por um raio não teria me iluminado mais! De repente, uma espécie de esperança febril tomou conta de mim. Não conseguia me dominar. Era ele! O mestre que recebia publicanos! Talvez, apenas talvez, houvesse ainda alguma saída para mim, alguma hipotese de reconciliação. Saí de casa quase desorientado. Estava determinado a vê-lo custasse o que custasse. Corri, andei de rua em rua perguntando.


Enfim, lá estava a multidão e lá estava eu, o anão de Jericó. Como iria vê-lo no meio de tanta gente? Empurrei e fui empurrado. A má vontade do povo era geral. Desse jeito nunca o veria! Fiquei quase desesperado. E quando a angustia já se apoderava de mim divisei o plano. Correria à frente da multidão para me posicionar. E assim o fiz. Mas, logo vi que não seria suficiente. O grupo que o cercava era enorme. Havia muita gente em peregrinação a Jerusalém, para a festa da Páscoa. Iriam me engolfar, qual onda gigante. Não havia solução!

E foi aíi que vi a árvore! Um sicomoro de frutas doces e saborosas. Os ramos eram largos e baixos. Daria para subir. No entanto, as roupas dificultavam; puxei-as para cima. Deve ter sido uma cena bem ridícula! Imagine eu, o chefe dos publicanos, o homem mais rico de Jericó, com as pernas magras aparecendo, trepando numa árvore como se fosse um garoto e ainda mais diante de tal multidão! Mas não me importava. Só queria vê-lo... Precisava vê-lo!



Zaqueu parou de olhos fechados, como que a rever a cena . A emoção que o dominava era viva e forte. A recordação daquele dia sempre tinha esse efeito nele. Não podia evitá-lo. Lucas não despregava os olhos dele, bebendo suas palavras e cada gesto retendo bem na memória a emoção do ex-publicano, pois assim iria narrar ao mundo.
Com longo suspiro e uma expressão de êxtase no rosto Zaqueu continuou:


_Ele era tão simples... não parecia nada de especial. Um homem com o aspecto como o de qualquer outro. Não era alto nem baixo, nem feio nem bonito. O cabelo, a barba, a cor da pele exatamente como a de tantos outros na multidão. As roupas pareciam humildes e gastas.


Mas os olhos... ah! Aqueles olhos! Esses sim, eram inigualáveis! Não pela cor ou tamanho, mas pelo que transmitiam. Olhar em seus olhos era ver a eternidade, o amor, a paz, a salvação da alma! Mirar em seus olhos era como deixar este mundo e ser envolvido pelo divino, ser tocado em plena alma, perdendo para sempre o coração.


_Havia risos na multidão (continuou Zaqueu depois de um momento de emocão). As pessoas apontavam para mim e riam. O meu nome ia passando de boca em boca, num escárnio que era tão bem conhecido, mas que dessa vez não me afetava, pois só conseguia olhar para ele. E ele parou... Parou bem embaixo da árvore. Ergueu os olhos e encontrou os meus. Senti-me desnudo! Como se num simples e curto olhar ele pudesse ver o meu interior, cada pensamento, cada motivação, cada ato passado e futuro. Senti meu rosto se encher de calor, fiquei vermelho de vergonha e ouvi sua voz qual melodia dizer-me:


_Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa!


Praticamente caí da árvore aos seus pés. Era verdade, afinal! Ele recebia os publicanos. Não era mais um enfatuado fariseu ou sacerdote hipócrita que temia a impureza do povo. Ele era mestre, de verdade! Sua pureza era tal que não temia o contacto com o pecado alheio. Podia sentir que não apreciava meu pecado mas que se interessava por mim. Como resistir a isso? Como resistir a alguém que mostra se interessar por quem eu sou e não apenas pelo que posso fazer em seu benefício?




Por mais que viva, jamais me esquecerei aquelas poucas horas que ele passou em minha casa. Lembro de cada gesto, de cada palavra, de cada olhar. Não que fossem diferentes ou especiais em si, mas porque naquele dia Deus sentou-se à minha mesa. O mesmo Senhor que eu julgava distante e que pensava que já me condenara inexoravelmente estava ali, partilhando o meu pão, sentado ao meu lado. Senti naquele dia que por ele seria capaz de tudo! Se tivesse ordenado que me matasse, te-lo-ia feito com prazer! Mas ele não queria sacrifício. Queria que vivesse. Queria que experimentasse o seu amor e o transmitisse.


Quando o extravasar do seu perdão me encheu, percebi o quanto fora fútil acumular riquezas. Já não precisava de nada daquilo para ser feliz. Já não me importava com a aprovação do povo ou o escárnio da plebe. Queria apenas a sua aceitação e essa era total. Propus dar metade de meus bens aos pobres. Sabia que era preciso repor o que obtivera de cobranças exageradas dos impostos. Nada disso foi sacrifício para mim. Era o mínimo que podia fazer, depois de tanto que recebera. O mestre me dera a vida! Tudo que podia fazer era vivê-la para ele.


Suas palavras de aprovação estão gravadas em meu coração. Ele disse : “Hoje houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão". E com estas palavras ele me deu a aprovação, a aceitação e a inclusão que desejara toda a minha vida! Eu estivera mesmo perdido, destituído, sem rumo e ele me redimiu!


Lágrimas enchiam os olhos do pequeno homem e contagiavam também a Lucas. Não era possível ouvir este testemunho sem se emocionar. Quantas vezes desde o princípio de seu trabalho já o médico amado se deixara comover pelas estórias de cada pessoa que foi tocada pelo amor de Jesus. Zaqueu era apenas mais um. Mais um exemplo desse amor salvador, incondicional, que não conhecia barreiras, que não media esforços, que conquistava, dominava e transformava. E de transformação falava agora o antigo publicano.


_Os dias seguintes foram de autêntico frenessim. Em pouco tempo já havia distribuído a metade de meus bens entre os pobres da cidade. A notícia que se espalhou foi que eu enlouquecera e estava jogando fora minha fortuna. Pessoas das localidades vizinhas vinham à minha porta a toda hora do dia e da noite pedindo auxílio. E eu dava liberalmente a quem me pedisse.


Nunca experimentara o prazer de dar. Quanto mais nobre e gratificante é do que o gozo de acumular. A expressão no rosto daqueles a quem devolvia o que lhes tirara de forma desonesta era tal que me enchia de vontade de dar mais e mais.


É claro que as consequências não se fizeram esperar. Os amigos por interesse se foram. Minha mulher me abandonou. E por fim, como já não pudesse manter o nível de lucros de antes, perdi a posição de chefe dos publicanos e já pouco possuía.


No entretanto, soube que Jesus, meu mestre havia sido morto pelos líderes religiosos e ressuscitara. Ouvi dos seus dias e seu trabalho e como voltou ao céu. A igreja cheia do Espírito Santo crescia em Jerusalém. Decidi então me juntar a Pedro e aos demais apóstolos e participei do evoluir desse trabalho celestial.


Depois de muito aprender, me acharam digno de ocupar o cargo de ancião da igreja aqui em Cesaréia. Tenho tentado me manter fiel ao Senhor nesta tarefa, mesmo sabendo que não sou digno de sua graça absoluta. Aguardo o regresso do Mestre com ansiedade, pois estar com ele é tudo que mais desejo!


O sorriso de paz e harmonia estava de volta ao rosto do ancião depois deste relato sobresaltado de emoções. Lucas tinha sua história e mais um relato dos feitos extraordinários de Jesus. A maneira como transformara a vida deste homem era mais um exemplo do que fizera na vida de tantos e o médico sentia crescer seu apreço e amor pelo Senhor.

Deixou a casa pouco depois e parou junto ao porto, respirando fundo o ar salgado que vinha do Mediterrâneo. Seguiria com seu trabalho de coletar dados para a sua narração, mas, com Zaqueu, mais uma vez, sentira a emoção de ter estado praticamente aos pés de Jesus!





(Baseado em Lucas 19:1 a 10 e na tradição que afirma ter sido Zaqueu discipulo de Pedro e ancião da igreja em Cesaréia)


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Um comentário:

Anônimo disse...

Nunca me emocionei tanto com a historia de Zaqueu, quanto agora. é linda.