6 de nov de 2009

CONTO REGIONAL

"É para se ir fazendo..."


Fui criado nas ilhas portuguesas dos Açores. Guardo recordações maravilhosas desses tempos. A cosmovisão açoreana é típica do ilhéu e se resume na frase que serve de título a este conto.   A  narrativa é ambientada nos Açores e se baseia no texto de Eclesiastes 11:4

"Quem observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará".

A Maria tinha o ar mais consolado do mundo.  É verdade que a vida ia difícil. Era verdade que o Manuel não era lá o marido que ela esperava.  Mas, que importava isso se estava agora á espera de seu primeiro rebento? Vivia pelo ser que lhe crescia no ventre e que já sentia espernear. Havia de ser forte e belo.

E sentada na varanda bordava para seu enxoval quando o Ti Zeca, da Herminia lhe gritou:
- Ó Maria, antã isso faz-se ou não ? Nunca mais terminas o bordado, rapariga...
Ela riu gostoso e respondeu:
- Não se preocupe tio, é para se ir fazendo...

E o garoto nasceu. De fato, forte e saudável, cabeludo e vermelhão.  Francisco de nascimento, Francisco José de Batismo, que o padrinho na cidade assim o quis.  Cresceu rápido, bem costituído e com força, que é o que se precisava naquelas terras de vida dura.

Cresceu ilhéu, vendo o Atlântico norte todos os dias, e aprendendo a amar o ar húmido e a terra fértil dos Açores. Desde muito cedo ouviu aquela frase tão tradicional da região e que parecia andar de boca em boca como doce preferido. Chavão máximo do modo de ser e de viver se dizia com pachorra e boa disposição de qualquer coisa em que se estava envolvido: “Não é para se fazer, é para se ir fazendo” ...

O Francisco incorporou facilmente o dito que melhor do que qualquer outro falava da cosmovisão das gentes açoreanas. Cresceu na tranquilidade da vida do campo, rodeado dos animais domésticos e das vacas nos cerrados do pai. Viu as estações passarem e as festas chegarem com seu reboliço, mas sempre numa paz de alma própria de quem tem horizontes limitados pela imensidão dos mares que o cercam. Pelo que tranquilo nascera e calmo se desenvolveu.
Na idade apropriada começou a frequentar a escola da freguesia. Antes, de madrugada ainda, ia aos campos com o pai tratar das vacas.  Depois, havia as aulas e à tarde um pouco de tempo livre para brincar. O menino era sossegado na sala, não dava nenhum trabalho à professora.  No recreio  preferia se quedar vendo os outros a gastar energias correndo de um lado para o outro, qual coelhos assanhados.  Não se metia em brigas, não discutia e nunca era repreendido pela mestra.   Apenas não era de muito estudo.  
O 1º ano passou sem que aprendesse mais que as vogais.  No 2º, e já repetente, ia pelo mesmo caminho.  E quando um dia, já um pouco preocupada pela lentidão do filho a mãe o repreendeu pela demora em terminar o dever de casa, o menino a olhou com olhos meigos e com um ligeiro sorriso ainda bem infantil e respondeu:
_ Ó mãe, isto é para se ir fazendo!

E não dera mesmo para aquilo, dizia o pai. Era pau de outra cepa. Aprendeu a escrever o nome que era o que o progenitor sabia, e lhe chegara para ter familia e casa. Havia de chegar também ao Francisco. A família aceitou tudo passivamente. Não valia a pena fazer confusão por causa disso. Nem todos nascem para doutores e o filho do Manuel da Burra havia de ser mesmo um agricultor e criador de gado como o pai.

 O rapaz cresceu forte, que lá comer, comia que dava gosto. Então pelas festas do Divino Espirito Santo era um ver se te avias que ninguém o batia numa mesa de banquete. E foi mais ou menos por essa altura, devia o garoto ter já uns 18 anos, que viu a Susana, na tourada das Fontinhas.

O dia estava de festa, o sol a pino, tudo florido, um cheiro de perfume no ar e a freguesia cheia para a tourada a moda da Terceira.  O Francisco fora com outros amigos, a modes de espairecer um bocado.  Mas logo olhara para cima e notara numa janela vermellha, uma rapariga com os ombros apoiados numa linda colcha bordada com motivos campestres com fios dourados num fundo azul e rosa. Ficara fisgado à primeira como peixe que encara isca colorida.

Os amigos o impulsionaram na aventura, que era bem hora do rapaz se entusiasmar por alguma coisa. Mas o Francisco com seu ar bonachão limitou-se a olhar, e a olhar. Lá a cachopa o viu sim senhor, e até lhe retribuiu o olhar. Mas mais do que isso não se passou. Na hora dos touros o rapaz não ousou sair á rua a modos de impressionar como seria a tradição. Não era do seu estilo e estava muito bem sentado com um chouriço preto à frente que até dava gosto. Mas, nos intervalos entre cada touro lá se arrastava até a janela rubra a fim de admirar a flôr humana que brilhava mais que as vegetais. Mas quando os colegas o apertaram querendo saber se o namoro era para se fazer, respondeu dando de ombros:
- É para se ir fazendo.. .
A partir daquele dia da festa, Francisco passou a frequentar as Fontinhas a cada fim de semana, que era freguesia vizinha à sua. Ia de bicicleta e passava frente á casa da Susana vezes sem conta, nunca ousando, no entanto, encetar conversa. E fora a pequena que o abordara um dia, perto do portão da casa e que lhe permitira iniciar este namoro meio amizade que frustava os familiares. É que os pais da moça tinham planos mais elevados. Havia um filho do Sr.Dr. Azevedo de Angra que parecia arrastar a asa à pequena, e este brutamontes da Vila Nova que nem sabia falar direito vinha entornar o caldo. E o que é que a rapariga via naquela cara bolachuda e avermelhada?

Mas as coisas do coração são assim e a Susana saía á mãe, de pelo na venta, não aceitava ser pau-mandado e nunca se poderia dizer que era uma maria–vai-com–as-outras. Bem o Pedro Azevedo, filho do doutor, destinado à alta sociedade de Angra a presenteava com as prendas mais bonitas vindas do continente. A rapariga agradecia e continuava a falar ao Francisco a cada fim de semana, apesar de ser ela a puxar a conversa e a dar as conclusões . E os meses se arrastaram. Um ano se passou e já iam quase no fim do segundo e a coisa não atava nem desatava.

O Manuel da Burra não dava interesse a esse namorico do filho, mas a mãe se arreliava e não pouco. Foi ter com o padre Bento que a casara e batizara o pequerucho.

_ Ó Senhor Padre, a sua bênção.
_ Deus te abençõe, minha filha.
_ Sr. Padre, ando com uma coisa cá a atraverssar-me o coração, a modes que me deixa louca!
_ Ó rapariga de Deus, diz lá o que tens.  Sou teu confessor há poderes de anos.
_É o Francisco, sr. Padre. O rapaz é trabalhador e nunca me dá canseiras, lá isso é verdade, é uma paz de espírito. Mas não é capaz de fazer nada sozinho. Tudo tem que ser à pressão. Se não for empurrado não desemperra.
_Feitios  filha,são feitios... cada um tem o seu... Lá o rapaz é assim quieto, que não é nenhum pecado.   Vê lá o Luciano da Mariquita, que trabalhos lhe dá!  Vês logo que te saiu a sorte grande!
_Loivado seja, Sr. Padre!  Não estou a reclamar que o meu Francisco é uma jóia de rapaz. Mas queria vê-lo casado e não sei se o veja.

_ Então não hás-de ver? Isso se arranja facilmente. Ouvi até que tem rapariga lá para as Fontinhas.

_Ter tem, mas não sei se por muito tempo.

_ Explica-te lá criatura, que não te entendo. Tem ou não tem?

_ Ó Sr. Padre, o Francisco anda de namoro com uma pequena das Fontinhas há quase 2 anos. É boa rapariga, sim senhor, que lhe conheço a familia e até me dei com a mãe dela nos meus tempos de solteira. Casou com o Firmino, aquele que anda metido nisso dos laticinios lá pra Angra.

_ Sei quem é, boa gente.

_ Pois o Francisvo vai lá todo santo domingo. Faça chuva ou faça sol, não falha. Mas a coisa não anda.

_ Como assim?

_ Ele nunca mais se despacha a pedi-la. E o pior é que o filho mais novo do Dr. Azevedo tem o olho na pequena e se o meu Francisco não se avia vai ficar a ver navios.

_ Ó lá ... isso é outra história, que o Pedrinho do Dr.Azevedo eu conheço e não é rapaz para desfeitas. Se cismou com a rapariga temos sarilho e do grosso.

_ Está a ver sr. Padre. Sei que se falar ao Francisco ele há de escutá-lo. A mim já se me secou a língua de tentar, e parece que estou como o santo a pregar aos peixinhos.

_ Ó rapariga, isso não é problema e se arranja. Dou três palavrinhas ao pequeno e já tens nora noutra freguesia que até te regalas!

_ Valha-me nossa Senhora, que era um alivio grande!  Sr. Padre era uma esmola que me fazia ...

_Não fales mais nisso! Vai-te descansada e com a ajuda de Deus!


E ela foi.  Se havia alguém que podia tratar da coisa era o Padre Bento, que casamenteiro como ele não havia em todo aquele lado da ilha.


Nisso se passou mais um ano e quando chegou a primavera e Abril entrou, havia ares de festa na casa do Firmino das Fontinhas. Foi uma boda como poucas e o banquete demorou até de noite com tudo do bom e do melhor.  A Susana e o Pedrinho do Dr. Azevedo deram o nó na Sé de Angra com pompa e circunstância com a igreja cheia de convidados que o pai da noiva não cabia em si de contente.


Não fôra falta de paciência da rapariga que levara a este desenlace.  Praticamente iniciara o namoro e a cada fim de semana era ela que fazia a maior parte do trabalho perguntando e respondendo.  Lutara contra a vontade do pai e de todos ao redor.  Ninguém se levantara a favor do tosco agricultor.  Meses a fio à espera que o rapaz se decidisse e tentou várias vezes levar a conversa para o lado do pedido de casamento. Mas, o Francisco parecia irredutivel. Era mais fácil Moisés tirar água da rocha que ela um pedido de casamento daquele criador de vacas!  Por fim cansou!  Não dava para continuar perdendo a juventude numa causa vã. Aceitara o pedido do Pedro e despediu o Francisco com lágrimas nos olhos.


O Manuel da Burra quase não ligou ao caso. A Maria, porém, desesperou!  Adivinhava que se o filho não casasse ali, não havia de casar mais!  E como é comum as mães conhecerem bem os filhos que têm, ela estava mais que certa. Se o moço já era fechado e titubeante antes daquilo tudo, agora é que não se abria mais.  Preferia as vacas às pessoas e o campo à freguesia.  Fechou-se em copas e passou a falar ainda menos que antes.

Mas a sorte, esta personagem tão desejada mas difícil de encontrar, parecia ter um gosto especial por aquele campônio tranquilo e veio lhe bater á porta novamente com armas e bagagens e sem que ninguém pudesse prever. O Antônio da Canada das Flores tinha embarcado para o Brasil há anos, era o Francisco ainda novo. Fizera fortuna considerável e voltara agora com idéias de se estabelecer na terrinha e montar um negócio.   Chegara com todo o aparato próprio do emigrante que regressa em grande. Fizera logo festa.


Foi mordomo da festa do Senhor Espirito Santo e pagou uma tourada como há anos não se via pelos lados da Vila Nova. Iluminou a Igreja para gáudio do Padre Bento e construiu uma senhora casa com sobrado e tudo. Andava de carro para todo o lado e vestia roupas um tanto extravagantes. Manias dos trópicos... Mas quem reparava nisso, quando o sujeito era tão mão aberta ?


Só uma nuvem escura toldava o sol da felicidade do Sr. Antônio.  Mas era uma nuvem de volume consideravel. É que a Ivone, sua senhora, não lhe dera herdeiros. Dois abortos e um pequeno que não chegara a uma semana e lá se tinham ido as esperanças de ter continuidade. E para quem deixar aquele dinheiro todo se não tinha irmãos ou sobrinhos e os primos eram todos afastados?  Foi aí que entrou o Francisco.


Não se sabe por obra de quem, talvez a fada madrinha, o Sr. Antonio fincou os olhos no rapaz do Manuel da Burra e decidiu que ali estava um bom moço para se investir. A aproximação não se fez esperar e logo o Antônio e o Manuel eram vistos juntos por toda a freguesia, bebendo vinho dos Biscoitos, comendo espetadas de porco ou chouriço na birosca da Madalena. Eram verdadeiros compadres. E ninguém na freguesia entendia o que o Antônio via no raio do Francisco.   Era trabalhador sim senhor, comedido e respeitador. Nunca fora visto em patuscadas noturnas ou sarilhos de saias. Ia á missa com a mãe todos os domingos, cuidava da sua vidinha sem chatear ninguém. Mas era também um mosca-morta completo, não se lhe tirava duas frases de jeito. Andava quase na casa dos 30 e nem sinal de casamento. E não fora ele que perdera, por falta de iniciativa , a Susana do Firmino das Fontinhas?


Nenhuma razão porém, demovia o Antônio. Meteu na cabeça que o Francisco era um rapaz ás direitas e que era ele que lhe serviria de filho e herdeiro á falta de prole própria.   E lá se puseram ele e o Manuel da Burra a fazer planos e esquemas de como usar a fortuna brasileira em bons fins e de preferência bem lucrativos. Só um problema havia. O Manuel colocara no nome do filho tudo o que tinha.   É que tivera pelo inverno uma pneumonia das brabas e pensara que estava a esticar o pernil, pelo que, antes que o Diabo as tecesse foi tratando da papelada com o Osório do caminho da Praia. Agora pois, para que qualquer negócio fosse tratado, era preciso que o Francisco anui-se e colocasse no papel aquele garrancho a que chamava assinatura. E aqui começou o cabo dos trabalhos.


Convencer o rapaz é que eram elas. Ouvia tudo com paciência angelical e parecia concordar, mas mal o Antônio saia de sua casa Francisco voltava aos campos e ás vacas, como se sua vida não estivesse prestes a mudar completamente com o simples riscar de uma caneta barata. Ele só se sentia bem no seu ambiente. Só e sossegado no meio do gado, cheirando a erva molhada e o estrume fresco é que parecia feliz e contentado. Que isso de negócios e planos não lhe entrava bem.


Foi levado a Angra para tratar da papelada, mas a viagem fora um desastre! Primeiro que o Francisco não se sentia bem nas roupas que lhe arranjaram para a ocasião solene. O sapato o apertava e a gravata o sufocava. Depois que a cidade o deixava assustado e nervoso com tantos carros e movimento.
A rua da Sé lhe parecia um formigueiro humano e a praça velha uma verdadeira babel. O Pior foi ver a Susana de repente a sair de uma loja, muito bem vestida á senhora da cidade de braço dado com o marido que já era doutor desde que voltara de Coimbra. A visão o aterrara e lhe tirara o sossego e nem toda a boa vontade do Antônio ou a bonomia do Manuel o demoveram. Ele não quis saber de assinar nada sem pensar bem antes.


- Mas já pensara por mais de três meses!... reclamou o Antônio. Afinal de contas, quanto tempo é que se ia perder nisso? Não se podia ficar adiando eternamente o assunto pois tinha necessidade de andar com o negócio. O tempo das festas já se fora e havia que colocar o dinheiro a render pois não há felicidade que não acabe e fortuna que não se esgote.


Novamente a indecisão do Francisco e sua falta de iniciativa trabalhou contra ele. Parecia que a tal sorte que quando sorri traz alegria a qualquer um, só podia azedar o humor do Francisco. O Pai desesperou, a mãe redobrou os rosários e as missas, o padre Bento gastou mais um bocado do seu latim e o “Brasileiro” esperou mais um tempo. Sempre que arguiam o Francisco se o negócio se fazia ou não respondia invariavelmente:
- Vai-se fazendo ...

Os anos se passaram. O Antônio Brasileiro lá se arranjou com um proprietário de terras da Agualva e o negócio até lhe ia bem. Produzia queijo de cabra e outras coisas e fornecia aos laticinios de Angra. O Manuel da Burra morrera, que Deus o tenha; não suportou por mais de 2 dias depois que o touro do Constantino lhe dera uma valente marrada na preparação da tourada das Lajes. A Maria o chorou a valer e passou a usar luto completo que havia de envergar até a morte. E o Francisco mantinha a vida quieta e sumida de sempre sem que nada parecesse o tirar daquela quase sonolência.



A pobre mãe vendo os anos se chegarem e pensando no futuro lá resolveu tornar a atazinar o filho a ver se desta a coisa ia, pois já não lhe devia restar muito tempo. Numa tarde fria de Outono com a chuva caindo impiedosa e o vento soprando por entre as frestas da janela, esperou o Francisco com uma sopa bem quentinha e o pão de milho que ele tanto gostava barrado em manteiga suculenta. Quando o moço parecia estar se satisfazendo encheu-lhe de novo o prato do líquido espesso e revitalizante e começou:


-Ó filho, tens que pensar na vida.


O Francisco levantou os olhos lentamente da sopa e perscrutou a face da mãe á procura de sinais do que ela tinha preparado para aquela conversa. Não via nada que o ajudasse e tornou a baixar a cabeça para o prato.
- Teu pai, que Deus o receba, já aí não esta para nos valer. E eu não posso durar para sempre filho. Estou a ficar velha e cansada.


O filho suspirou como que a mostrar que não estava para discussões no fim de um dia de trabalho que fora bastante dificultado pelo tempo agreste.


- Tu tens vivido tua vida sossegado e não tens me dado desgostos de mais, que Deus te pague.
Mas o teu feitio também não tem dado para mais. À esta altura eu já devia ter 3 ou 4 pequenos a pular à minha volta e cá estou sozinha nesta casa que mais parece um sepulcro. Já não te posso sofrer assim tão apagadinho e mudo.  Ainda estás em tempo de fazeres pela vida. Olha que sabia bem ter netos antes de ir desta para melhor.  Mas é preciso que te decidas a dar o passo e deixar de seres tão teimoso.


Francisco não lhe respondeu. Ele nunca respondia. Ouvia sempre calado e escusava de dar trela ás conjecturas da mãe. Aprendera depois de tantos anos que se ficasse bem quieto a velhota se havia de cansar e parar de o apoquentar. Era o único jeito. Mas Maria continuava.


- Tenho estado a tentar ajudar-te que só quero o teu melhor filho. Então uma mulher não há de lutar pelos filhos? Olha a Berta, viúva do Fernandinho, é boa rapariga. Já lhe acabou o luto maior e pode casar. É trabalhadora e asseada e traz o seu pequeno sempre tão limpinho que dá gosto. Mas vive com dificuldade. É uma cruz. Tu bem que podias amanhar-te com ela e todos ficavam felizes.  O padre Bento já me disse que via esse arranjo com bons olhos.  Tu já não podes pensar em raparigas novas, mas a Berta vinha mesmo a calhar. Não me dizes nada?


A Mulher desta vez estava irritada. Desde que perdera o seu Manuel que andava desensofrida. Aquilo nem era vida nem nada. Para ouvir uma voz tinha que ser ela a falar, pois a voz do filho só a ouviam as vacas. As vezes até achava que o rapaz já perdera a faculdade da fala ou esquecera como pronunciar as palavras. Mas o Francisco não parecia se enternecer com os arroubos da mãe.


Então, perdera a Susana que era uma flôr de estufa e ia agora amarrar-se á Berta que coitada já vira melhores dias? Não estava tudo tão bem assim, sem mudanças bruscas, sem confusões? Agora queria ele lá um filho de outro para criar? Crianças gritam e choram e sujam tudo. Não lhe parecia bom arranjo e quando a mãe desesperada lhe perguntou se não lhe ajudava a fazer a vida melhor, respondeu lacônica e silenciosamente :
- Há de se ir fazendo ...


Mas dois anos se passaram, e no tempo se armar o presépio a Maria adoeceu. Não parecia coisa de monta mas já não se levantou, e mesmo o Francisco tendo vendido duas vacas para pagar as deslocações do médico de Angra já não havia o que fazer. Antes que o carnaval chegasse, já se lhe fazia o funeral e o Francisco só no mundo se afundava em sua solidão e silêncio.

Nunca deixara de ser trabalhador. Não fora por falta de sorte que estava só e mal na vida. Tivera tantas oportunidades que desperdiçara que já tinha a fama e o proveito de ser o indivíduo mais perdulário da ilha e quase não o viam mais. Deixara de ir á missa. Não andava pelo povoado, não ia á tasca beber e ás vezes, nos meses de verão, já nem sequer à casa vinha de noite. Dormia nos campos, metido entre as vacas e coberto pelo capote que não deixava há anos.


Por falta de alimentação correta e submetido daquele jeito ás intempéries, acabou por emagrecer. Apesar de rijo e forte e de se gabar de não ter ficado um dia sequer doente desde o sarampo que tivera aos 8; agora estava mal , com uma tosse que não o largava. A principio achou que fosse só uma constipação. Depois atribuiu tudo a uma pancada de vento que o pegara desprevenido. Mas quando começou a cuspir sangue lembrou-se do pai e procurou descansar em casa. Foi aí que o padre Bento o encontrou numa tarde de sábado, consumido de febre e já há 3 dias sem comer. Procurou tratá-lo, mas a coisa já estava avançada demais... O Francisco morreu antes que o médico pudesse aviar a receita. Que desperdicio!



O velho pároco que o batizara pensava na futilidade daquela vida. Na constante indecisão do rapaz. Nunca sabia se queria ou não.  Nunca se resolvia a fazer o que era preciso.   Recordando o texto sagrado o padre recitou em voz alta o Eclesiastes: “Quem olha o vento nunca semeará e quem olha as nuvens nunca segará “.   O Francisco fora o exemplo consumado disso mesmo e custava ao religioso ver uma vida assim perdida sem realização ou fruto.  E,  enquanto pensava nisso chegou ao cemitério aonde o coveiro cavava a cova do malogrado. 
O rapaz estava sentado encostado a uma campa fumando um cigarro de palha e pareceu ter sido apanhado de surpresa pelo visitante.


- Então? (disse o cura) Essa cova é para se fazer ou que?


O coveiro de sobrolho levantado e tentando um sorriso desdentado respondeu com gosto:


- Ó Senhor Padre, é para se ir fazendo ...


(Conto baseado em Eclesiastes 11:4 e 5)

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